Conta a lenda e os livros clássicos que marinheiros antigos, ao cruzarem determinadas regiões no mar, tinham que resistir ao canto sedutor das sereias, que os atraíam para a morte certa.
O canto que ouvimos hoje é o da inteligência artifical. E como resistir? A alguns toques do teclado podemos ter um assistente pessoal, um design completo para um site ou blog, criar um aplicativo para celular ou um programa para computador.
Podemos ensinar habilidades (“skills”) à IA, automatizando tarefas do dia a dia, além de produzir relatórios, resumos, vídeos, textos completos e o que mais a nossa criatividade permitir.
Nessa consideração a IA veio para facilitar a nossa vida, fazendo o trabalho que levaríamos horas ou dias Porém com a nossa estupefação surgiu também a padronização: textos com “cara de IA”, imagens que se tornam familiares, vídeos artificiais e por aí vai.
Depois de ficar mais de um mês desbravando o ChatGPT, Claude, Grok, Notebook LM e outras IAs, percebi que é fácil termos uma (falsa) sensação de alta produtividade.
Não que não haja utilidade nesses sistemas, muito ao contrário. Afinal estamos vivenciando a maior revolução da humanidade, pois nunca na História houve uma tecnologia que pudesse colaborar de forma quase autônoma com o ser humano. E estamos apenas no início.
Mas se a IA ainda vai se desenvolver, alcançando patamares talvez inimagináveis hoje para nós, então qual o nosso lugar no mundo? Afinal o que nos encantou e até mesmo permitiu sobreviver a horrores e catástrofes, como espécie, foi a nossa capacidade de ir além, de transcender, seja com as artes, no esporte, nas ciências, etc.
E a partir do momento em que o mundo fica com o mesmo tom, padronizado; quando a criatividade cede espaço à automação pura; quando a arte passa a ser copiada e replicada por entes autômatos; então talvez, sim, tenhamos perdido a essência, o que nos torna únicos, com nossas dores, paixões, talentos e singularidade.
Por acaso, esse último termo representa um estágio da IA em que a máquina sobrepujará o homem. Que ironia.
