No livro “diário de um homem supérfluo”, de Ivan Turguêniev, Tchulkatúrin, um funcionário público de baixo escalão narra, em um diário, os seus últimos dias. Era filho de uma família com condições, porém sua mãe era autoritária e seu pai, viciado em jogo.
Estando à beira da morte, revolve analisar o seu próprio caráter, chegando à conclusão de foi não mais do que um homem supérfluo. Nessas lembranças o personagem-narrador conta como um fato inusitado em sua vida conduziu à sua ruína pessoal.
O tal funcionário apaixona-se por Elizavieta Kiríllovna. E chega a esse sentimento a partir de devaneios próprios, escrutinando cada ação e cada gesto de sua amada, procurando sinais de que era correspondido, chegando à conclusão de que ela somente não se declarava a ele por certo pudor.
Nas semanas que passou ao lado de Liza teve a sensação de que o mundo se lhe abria, que tudo finalmente fazia sentido em sua vida monótona de reles funcionário. Porém a chegada à província do “Príncipe N”, um militar respeitado, rouba-lhe as esperanças e logo percebe que Liza estava apaixonada por ele.
Em seu orgulho, fecha-se em sua mesquinhez e passa a tratar todos com rispidez, até o momento em que Liza é rejeitada pelo príncipe. E, ao invés de confortá-la, chega a expressar felicidade com tal infortúnio.
O tema reflete a sua incapacidade de amar e ser amado, em razão de sua criação, pois embora acalantasse sentimentos, nunca os revelou ou tomou qualquer atitude em relação à Elizavieta.
Ao final, esta se casa com outro funcionário de baixo escalão, Bizmiónkov, que a acolheu e a compreendeu. Portanto, preenche a lacuna do personagem-narrador, que, perdido em suas emoções, sem saber demonstrá-las, vê a infelicidade acrescer à sua insignificância.
O ponto que nos interessa é o surgimento do diferente, do novo, do desconhecido. A província onde se passa a estória é afastada do burburinho da capital e a chegada do “Príncipe N”, com toda sua elegância e educação, conquista toda a localidade, que disputava a sua atenção. Cenário propício a que Liza, uma jovem de 17 anos, se apaixonasse pelo belo desconhecido.
O Príncipe representa o que desconhecemos ou o que desejamos em termos pessoais e profissionais. As redes sociais, nessa comparação, nos trazem a novidade, o desejo, a possibilidade (às vezes fantasiosa, como ocorreu ao nosso pobre personagem) de obtermos o sucesso que vemos.
E na roda viva da disputa por nossa atenção investe-se muito. Com o advento da inteligência artificial a ilusão ficou ainda mais atrativa e já não sabemos distinguir mais o que realmente existe do que é ilusório. O que vem da Capital, de longe, é sedutor, com promessas de uma nova vida, que daria sentido à nossa existência (mesmo que talvez nem estivéssemos pensando que ela não tinha sentido).
Cria-se a ilusão para vender mais ilusão. E o trivial, o que é conhecido, estabelecido, familiar, é deixado de lado, como velharia pertencente a museus, objeto de estudo de antropólogos (se é que no futuro existirão).
Moldamos nossos sonhos e nossa realidade pelo que vemos. Isso é bem conhecido pelo marketing sensorial. Porém a dinâmica do funcionamento desse estratagema se intensifica, à medida que as redes sociais dominam, hoje, a nossa atenção.
Assim fica fácil criar o desejo, criar a necessidade, para depois supri-lo. Na província fictícia, ninguém sabia da existência do Príncipe, até que ele lá chegasse. E a partir daí a disputa foi por trazê-lo ao círculo de convivência, para ouvir suas estórias, observar seus gestos, sua elegância, sua educação.
A influência digital funciona da mesma maneira. À medida que nos familiarizamos e concordamos com certo posicionamento, atitudes ou informações de alguém, passamos a validá-lo, a curtir suas postagens e a compartilhá-las.
Dessa forma damos poder, enquanto sociedade (ou “enxame digital”, na expressão de Chul-Han) a representantes de nossos valores e crenças, da mesma forma que estes validam nosso pensamento e ações. É um ciclo contínuo, infindável. E quanto há alguma quebra, algum comportamento discordante, não há problema: outros atores estarão prontos a entrar em cena e assumir o lugar.
Então molda-se o que se chama de “bolhas digitais”, que repercutem em “câmaras de eco”, que são os grupos, pessoas, ambientes que são concordes com nossa perspectiva de mundo, seja ela política, filosófica, econômica, pessoal ou mesmo profissional.
E já não há mais como eliminarmos o “novo”. Não há retorno, não há como se despejar o Príncipe. Resta sabermos como lidar com ele.
